O Culto Devido Ao Rei (Mateus 21)

Dos versos doze a dezessete vemos a importância que Cristo dá ao culto público.
Isso é imprescindível destacar nesses dias, onde muitos travam uma batalha contra a dimensão institucional da igreja, contra seu caráter público.

Mesmo sem entrar no mérito bíblico-teológico, já encontraríamos uma boa razão para não incorrer neste caminho. Hanna Arendt, autora de “As Origens do Totalitarismo”, afirma que o enfraquecimento das instituições (das quais a igreja é uma das mais fortes), e a acentuação do individualismo, tornam as pessoas presas fáceis ao totalitarismo do Estado. Pois, onde não há identidades de grupos concorrentes a esse, o indivíduo se verá incapaz de lutar ou resistir ao processo de coletivização de lealdade estatal.

Todavia, há muitas outras razões que poderiam ser explanadas, como a de que o fator organizacional é próprio de todo grupamento humano, o que significa, que sendo leve ou pesada, antiga ou nova, a dimensão institucional estará sempre presente. Outra razão é do próprio imperativo bíblico quanto a isso, junto com a confiança de Jesus em sua igreja. Se ele não desiste da Igreja, quem somos nós para desistir? Ainda poderíamos destacar o aspecto do exercício litúrgico disso, que ajuda a “calibrar” nosso coração para o alvo correto, através da rememoração da palavra e sacramento. Como também, a crucial vida em interdependência do Corpo de Cristo, pois pertencemos não somente a Ele, mas uns aos outros (Romanos 12.5). Enfim, motivos e argumentações não faltam. E isso não significa que se possa relativizar os efeitos nocivos de estruturações rígidas que venham a sufocar a vida orgânica da Igreja. Não se nega os riscos de possíveis deturpações do evangelho e do próprio culto, em função desse fator.

E aqui Jesus denuncia justamente uma deturpação feita no culto a Deus. Primeiro, ele denuncia aqueles que utilizavam o culto a Deus como fonte de lucro. O que tem se tornado, infelizmente, frequente em nosso país. O que não faltam são mercenários da fé que se aproveitam da desgraça alheia. Em segundo, e mais surpreendente, ele denuncia aqueles que viam o culto como forma de relações de consumo. Ou seja, Jesus denuncia tanto os que vendem, como os que compram. Ambos são culpados por alimentar tal sistema. O que me faz lembrar de Gregório Magno, um dos Pais da Igreja, quando disse que “Há uma correspondência entre os falsos profetas e seu público”.

Isso significa, que essa gente que se aglomera semana após semana atrás de palavra motivacional, de histeria, de holofote, de milagre ou de conforto, recebe como juízo divino “falsos mestres”, que entregam exatamente o produto desejado pelas massas. Forte isso, não é?

Jesus denuncia por fim, o dogmatismo cético daqueles que são incapazes de ver a graça de Deus no louvor dos pequeninos e na cura dos doentes. Daqueles que sob o disfarce de zelo ortodoxo vivem, como se diz por aí, “procurando pelo em ovo”. Foram tomados de um criticismo exacerbado, que não edifica ninguém, antes só obstrui o desenvolvimento da Igreja.

Mas, apesar da denúncia, Jesus aponta também para o culto apropriado a Deus. Esse tem a oração como ponto essencial. Nela, assimilamos a vontade de Deus para todas as coisas, (daí os imperativos para se orar, inclusive pelas autoridades políticas), como também, e alinhado a isso, nossa consciência comunitária se fortalece. O entendimento sobre a diversidade do Corpo se expande. O fator “Casa de Oração PARA TODOS OS POVOS” se solidifica. (OBS: Esse inclusive, era o grande problema ali, pois esse ambiente deturpado do Templo, era de uso “não restrito aos judeus”, destinado também aos gentios, o chamado “Pátio dos Gentios”. O preconceito judaico é estampado nesta negligência).

Culto a Deus também é, segundo Jesus, ambiente de cura do doente. Diante de Deus nossas mazelas são expostas, tomamos noção de nossos pecados e patologias. A confissão tem papel fundamental aí.

E para concluir, o culto a Deus é lugar de louvor. Não no sentido de música e cantoria, embora isso faça parte, mas de renovo, de fortalecimento. O que o salmista chama de “força” (Salmo 8.2), Jesus chama de “louvor”. Culto mantém a alma vibrante diante de Deus e da vida.

Portanto, tendo em vista isso tudo, a pergunta a se fazer é: “Com qual motivação cultuamos ao nosso Deus”?

Que Ele nos encontre com a singeleza e pureza daquelas crianças!